Setembro de 2014

Palavra do Pastor

A letra mata, mas o espírito vivifica (2Cor 3,6)



Mas o que é a letra e o que é o espírito?

Na tradição da Igreja espírito e espiritual são palavras empregadas para expressar a presença e a atuação de Deus no Mun­do. Mais concretamente, indicam o sopro vital do Amor de Cristo trazido do Pai e infundido no íntimo de cada criatura através de sua Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição e que nós costumamos chamar, simplesmente, de Espírito Santo.

Esse espírito, encarnando-se em cada pessoa e criatura, adquire características próprias da pessoa ou criatura que o recebe e cultiva. Daí a pluralidade dos carismas. A vida cristã de cada um torna-se então o seguimento de Cristo a partir de uma inspiração toda própria e pessoal, distinta e diferente das demais.

Há, portanto, um sopro vital divino impreg­nando todos os atos, todos os momentos de nossa existência, bem como todos os textos da Sagrada Escritura e que nós precisamos seguir, se quisermos ser vivificados por ele.

Mas, não se segue o espírito como o turista segue o guia, o soldado seu comandante ou, o motorista, os sinais de trânsi­to. Pois, o sopro vital, o espírito não é algo que está aqui ou acolá, já posto e fixo neste ou naquele lugar a modo de produtos pendentes nas prateleiras dos supermercados. Ele é como o vento, que sopra onde quer e não se sabe de onde vem e nem para onde vai (Jo 3,8).

Para seguir o espírito que vivifica é necessário dispor-se sempre de novo para sentir e conhecer o sopro vital ori­ginário.

Espírito é pré-disposição básica e elementar, infundida gratuita e misteriosamente em nosso coração. Foi esse espírito em nós quem captou o dom da vida cristã. No começo veio tudo de graça, sem nenhum esforço ou mereci­mento nosso. Mas, depois, foi preciso fazer-se merecedor de tão grande graça porque ela - a graça - segue a lei e a dinâmica do amor que nada pode exigir senão e apenas que a esperemos, a acolhamos e a guardemos.

Como seguir o espírito? Não é o mesmo que seguir um chefe, um líder ou um superior. Seguir o espírito é como seguir um amigo, espo­so ou esposa. Não existe receita. O princípio é a entrega confiante e gratuita, sem por quê nem para quê.

Nós não precisamos primeiro compreender o espírito para depois saber o que é. Eu não preciso primeiro compreender Deus para depois saber o quê ou quem é Deus.  Compreender é abarcar com nossa mente. Não preciso chupar o sorvete todo para saber que sorvete é. O espírito, Deus a gente sabe saboreando, pelo contato direto, corpo a corpo, nas Sagradas Escrituras, na vida da Igreja e na nossa história vocacional.  Por isso, os antigos compreendiam o processo de conhecer o espírito como um novo nascimento, exatamente o que significa a palavra conhecimento, co-nascimento. Nascer com. Para eles, conhecimento, antes de um conjunto de dados ou informações que eu armazeno na mente, era entendido como processo que nos faz conascer sempre de novo naquilo ou com aquilo que lemos e estudamos.

Para o seguimento de Cristo, como também para o ca­samento,  há um só pecado, e esse é mortífero: substituir o senhor, o amigo, o esposo pelo próprio eu. Cristãmente já está morto, mesmo antes da morte chegar.                                                                           Dom João Mamede